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Ouça aqui, em directo, os grandes temas do momento que fazem o pulsar da actualidade nos vários países.

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Paris, France

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Podcasts

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RFI

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Language:

Portuguese


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Antigo PM apresenta queixa-crime contra Presidente da Guiné-Bissau

6/7/2024
O antigo primeiro-ministro guineense, Martinho Ndafa Cabi, apresentou na quinta-feira, 6 Junho, no Ministério Público uma queixa-crime contra o Presidente Umaro Sissoco Embaló por atentado contra a Constituição, coerção dos órgãos constitucionais e abuso de poder das funções, enquanto chefe de Estado. O presidente do movimento Cidadãos "Patriotas para a Salvação da Constituição e da Democracia". denuncia ainda um clima de intimidação e acusa o poder guineense de ter destruído os principais partidos do país. Qual é a missão do movimento Cidadãos "Patriotas para a Salvação da Constituição e da Democracia" da Guiné-Bissau? Nós criamos o grupo Cidadãos Patriotas para salvar a Constituição e a democracia. Neste país, ao longo destes últimos quatro anos, podemos dizer que já não há democracia. Aqui não há liberdade de expressão, não há liberdade de manifestação, não há liberdade de nada. Os partidos políticos já não podem fazer nada, estão completamente destruídos pelo poder. Nenhum partido funciona. Os partidos estão completamente divididos, porque alguém quer dividir para poder reinar. Este movimento pretende ser a alternância política no país? Apresentamo-nos como alternativa a estes partidos que já não reagem, já não conseguem fazer nada. Estes partidos foram neutralizados pelo poder e ninguém consegue fazer nada aqui. Por isso é que nós criámos este grupo de homens e mulheres que querem mudar a situação, o status quo que reina no país. Foi essa motivação que vos levou a apresentar uma queixa-crime junto do Ministério Público da Guiné-Bissau? O nosso modus operandi é denunciar todos os actos que atentem contra a Constituição [da Guiné-Bissau]. Apresentamos as queixas-crime, mesmo sabendo que há o risco de se eternizar no tribunal, mas algum dia haverá julgamento. Apresentámos duas queixas, uma queixa contra o vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Lima André, por usurpação de poder. Ele sabe que a forma de chegar ao cargo de presidente do Supremo Tribunal de Justiça é através de eleições com os pares. Ele não esperou por isso, porque o seu colega, o presidente cessante, pediu demissão e ele nem sequer esperou que ele saísse, foi arrombar a porta dele e começou a funcionar como se fosse o Presidente do Supremo Tribunal. A outra queixa crime diz respeito ao Presidente da República que acusam, nomeadamente, de ter atentado contra a Constituição… Exactamente. O Presidente guineense dissolveu o Parlamento, quando a lei diz que quando os partidos políticos saem das eleições o limite para a dissolução das instituições são 12 meses. Acusam ainda o Presidente de tentativa de silenciar os adversários políticos para satisfazer os compromissos dos apoiantes… Acusamos o chefe de Estado de atentar contra a Constituição da República e de coagir os órgãos constitucionais. É abuso de poderes. Tudo isto consubstancia, no quadro legal, as violações que ele fez durante este tempo. Quer silenciar os dois grandes órgãos de soberania. A Assembleia Nacional Popular e o Supremo Tribunal de Justiça. Já tiveram alguma reação da parte do Presidente da República Umaro Sissoco Embaló? Não, não tivemos nada. Apresentamos as queixas-crime junto dos órgãos competentes do Estado. Como não foi entregue nenhuma cópia, ainda não há reacção da parte dele. O que esperam da justiça guineense? Apresentámos a queixa junto do Ministério Público. Agora vamos aguardar durante 30 dias e se não houver reacção dos tribunais, vamos seguir em frente. Vamos solicitar os tribunais de Comunidade Económica dos Estado da África Ocidental-CEDEAO. Estamos determinados. Consideram que a Comunidade Económica dos Estado da África Ocidental é uma instituição credível para se pronunciar sobre a Guiné-Bissau? Primeiro, confiamos na nossa justiça interna. Porém, se não houver uma tomada de decisão da parte dos nossos tribunais, vamos para os tribunais da CEDEAO. E se não tiverem resposta da CEDEAO? Nesse caso vamos avançar para a União Africana. Afirmou que os...

Duration:00:05:19

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Palco do Pompidou acolhe espectros e rituais de Catarina Miranda

5/15/2024
ΛƬSUMOЯI é um espectáculo que cruza dança, teatro, instalação sonora e instalação visual e que se afirma como “uma construção de arte contemporânea”. A obra de Catarina Miranda é apresentada, a 17 e 18 de Maio, no centro de arte contemporânea Pompidou, em Paris. A história parte de uma peça japonesa de teatro Noh, do século XV, em que o fantasma de uma criança-guerreira deambula pelo campo de batalha. A peça fala de espectros e rituais e mostra como a dança pode tornar visível o invisível. ΛƬSUMOЯI é apresentada como “uma peça de dança para um quinteto e um palco luminoso”, mas os palcos de Catarina Miranda mobilizam movimento, teatro, instalação sonora, instalação visual, histórias visíveis e rituais invisíveis. A criadora resume que ΛƬSUMOЯI é “uma construção de arte contemporânea”, inspirada na peça japonesa de teatro Noh de título homónimo, em que o fantasma de uma criança-guerreira, morta em combate, deambula por um campo de batalha. A inspiração surge da formação em teatro Noh, no Kyoto Art Center, no Japão, depois de se ter licenciado em Coreografia pelo Instituto Internacional de Coreografia/Centro de Montpellier e em Artes Visuais pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto. ΛƬSUMOЯI é uma peça também definida como apotropaica, ou seja, uma dança que afasta o mal e que convoca o invisível. O resultado é um espectáculo em que se cruzam espectros e sombras, danças ancestrais e linguagens futuristas. O espaço cénico oscila entre a penumbra e reflexos fosforescentes, nos quais os corpos se dissolvem e se revelam, ao ritmo de uma composição sonora também ela "apotropaica". ΛƬSUMOЯI estreou a 27 de Abril no festival Abril Dança Coimbra e foi apresentado a 30 de Abril no Festival Dias da Dança no Porto. A 17 e 18 de Maio, a peça vai estar no Centro Pompidou, em Paris, onde Catarina Miranda apresentou, em Março de 2022, o espectáculo “Cabraqimera” e a instalação vídeo “Poromechanics”. Catarina Miranda: "Não é só dança, é arte contemporânea" RFI: A Catarina Miranda está no Centro Pompidou pela segunda vez. O que significa para si, artista visual, mas também coreógrafa? Catarina Miranda, Artista: “Eu penso que enquanto artista ou arquitecta de palco, é super entusiasmante apresentarmos estes espectáculos em diferentes palcos e com diferentes públicos. Para mim, vir ao Pompidou - e vir uma segunda vez a convite da Chloé [Siganos] - é de uma importância extrema porque durante todo o meu percurso eu nunca me senti artista visual ou coreógrafa ou música. Eu senti-me sempre uma artista de arte contemporânea, uma criadora de arte contemporânea. Mais do que artista, eu sou criadora e o Pompidou para mim também é a confirmação de que o trabalho que eu desenvolvo - e que desenvolvo sempre com equipas- é uma construção de arte contemporânea, não fica preso no formato da dança. Para mim, o Pompidou, que é um espaço a que eu vim muito nova, em que estudei as peças, que é dos museus com o maior espólio de arte contemporânea, obviamente, é um grande apreço estar cá porque sinto que estou no local correcto para apresentar este género de trabalho. Porque não é só dança, é arte contemporânea.” O que significa ΛƬSUMOЯI? "ΛƬSUMOЯI é o título homónimo de outro espectáculo de uma peça de teatro Noh, que eu estudei em 2018, num programa que se chama Traditional Theater Training, em Kyoto. Foi uma peça que, de certa forma, criou algum afecto comigo em algumas questões e eu pensei que seria interessante usar o mesmo título. Em termos de tipografia está manuseado, mas mesmo a palavra é o nome de um fantasma, de uma criança-guerreira que voltou ao campo de batalha para se vingar da sua própria morte. Depois foi uma personagem ficcionada e popularizada porque era uma criança aristocrata, era poeta, músico, artista. Então, era uma pessoa que não estava de todo preparada para enfrentar uma guerra e que acaba por ser morta e ser apanhada num conflito entre território e poder, que é uma temática que podemos rapidamente transpor para hoje, para...

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Cimeira EUA-África: Estados africanos vão de “mão estendida” à procura de financiamento

5/6/2024
Arranca esta segunda-feira, 06 de Maio, na cidade de Dallas, a 16ª Cimeira Empresarial EUA-África, organizada pelo Conselho Corporativo para África. O evento vai decorrer até dia 09 de Maio e tem como tema central "EUA - Negócios em África: Parcerias para o sucesso sustentável". Serra Bango sublinha que os estados africanos vão de “mão estendida” a estas cimeiras, à procura de financiamento que depois não concretizam no terreno. Angola não foge à regra. De acordo com a organização, são esperados no norte do Texas, nos quatro dias de trabalho, mais de 1.500 executivos dos sectores públicos e privado dos Estados Unidos e de África, incluindo Chefes de Estado, centenas empresários norte-americanos e africanos de diferentes sectores, como o agro-negócio, energia, finanças, saúde, tecnologias de informação e comunicação, infra-estruturas, segurança, turismo, entre outros. O Presidente angolano, João Lourenço, vai participar na 16ª Cimeira Empresarial Estados Unidos - África, com destaque para dois onde abordará: "Investimento em Infra-estruturas Estratégicas, Crescimento Sustentável” e "Navegar o Futuro Energético de África”. Serra Bango, presidente da Associação angolana Justiça, Paz e Democracia, sublinha que os estados africanos vão de “mão estendida” a estas cimeiras, à procura de financiamento que depois não concretizam no terreno. Angola não foge à regra, com um chefe de Estado “agora de viagem em viagem à procura supostamente de investimentos para o desenvolvimento”. RFI: O que é que se pode esperar desta 16ª Cimeira Empresarial EUA-África? Serra Bango, presidente da Associação angolana Justiça, Paz e Democracia: Nestas cimeiras que congregam vários presidentes de muitos estados africanos, o que fazem ali não é outra coisa senão estender a mão para pedir financiamento para os seus Estados e que depois não investem devidamente em infra-estruturas, em processos de desenvolvimento para os seus Estados. Ao que me parece, Angola é provável que também esteja numa situação semelhante a esta. O Presidente João Lourenço vive agora de viagens em viagens à procura supostamente de investimentos para o desenvolvimento de Angola. Quando nós temos matéria suficiente e recursos suficientes para guindarmos a nossa economia e o desenvolvimento de Angola. A cimeira também surge numa altura em que os Estados Unidos da América, por causa do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, procuram a todo custo afastar vários países que são parceiros da Rússia. Esta cimeira não deixa de ser uma dessas ferramentas ou instrumentos que os Estados Unidos usam exactamente para aliciar determinados Estados a afastarem-se da Rússia. Angola é um desses países. O namoro dos Estados Unidos com Angola intensificou-se nos últimos dois anos e há um investimento muito forte dos Estados Unidos no corredor do Lobito. Havendo esse interesse dos Estados Unidos no corredor do Lobito, onde investe milhões de dólares por causa dos recursos que vêm da Zâmbia e do Congo Democrático, aproveitando o facto do porto do Lobito não ser congestionado e uma linha directa entre a costa angolana e Estados Unidos. Portanto, esta Cimeira da América-África, para Angola, não sei se teria o mesmo impacto que tem para os outros países, porque há aqui uma relação muito directa entre os Estados Unidos e Angola. Por outro lado, não sabemos se esta cimeira irá produzir os efeitos económicos que supostamente Angola precisa. Que efeitos económicos é que são esses que supostamente Angola precisa? A diversificação da economia? Investimento, a diversificação da economia para a criação de infraestruturas, desenvolvimento da indústria, da agricultura, urbanização das cidades, estabilidade da própria economia angolana e a disponibilidade também de verbas, de dólares. A nossa economia, são petrodólares, é muito dependente do petróleo. E há um forte interesse - sempre foi manifestado politicamente este interesse - em diversificar a nossa economia, não depender excessivamente do petróleo. Mas a...

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“Peniche foi uma grande escola” contra a ditadura

4/16/2024
“As cadeias eram centros de organização política” durante o Estado Novo e “Peniche foi uma grande escola”. Quem o diz é o historiador Fernando Rosas que conheceu as prisões do regime ditatorial português e contou à RFI os tempos de luta política contra o regime que tentava calar, prendia e torturava os opositores políticos. A repressão intensificou ainda mais a revolta dos presos que, atrás das grades, se prepararam “para continuar a luta”. Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos o historiador Fernando Rosas. "Peniche foi uma grande escola. A prisão do Forte de Peniche”, conta-nos o historiador Fernando Rosas que esteve preso, vários meses, em Peniche em 1972. Esta prisão política do salazarismo foi um marco do autoritarismo do Estado Novo, mas também um símbolo da oposição política. A cadeia do Forte de Peniche acabou por reforçar o que o salazarismo quis abafar. A resistência foi uma escola para muitos, como para Fernando Rosas, que se viria a tornar num dos mais reputados especialistas da história do Estado Novo. Fernando Rosas foi levado para a prisão do Forte de Peniche, depois de ter sido preso em Agosto de 1971 e condenado a 14 meses de prisão correccional. Esta era a segunda vez que o regime o prendia devido à sua actividade política. Um ano antes tinha fundado o partido MRPP e tinha participado na criação do Movimento Esquerda Democrática Estudantil. Quando foi para Peniche, encontrou João Pulido Valente, um dos fundadores da FAP [Frente da Acção Popular] que lhe disse que a prisão estava dividida entre os presos do Partido Comunista Português, de um lado, e os presos que não eram do PCP do outro. Por isso, ele só teria de pedir para ir para “o 2°B”. E avisou-o: "É aí que estão os homens do Golpe de Beja, os tipos dos movimentos de libertação nacional das colónias e os grupos de extrema-esquerda. E tu chegas lá e dizes: 'Daqui só saio para o 2°B', o segundo andar do pavilhão B. E foi exactamente o que eu fiz!" Foi no 2°B que Fernando Rosas entrou no que diz ser “uma espécie de universidade organizada”, com “grupos de trabalho, grupos de estudo”, em que se estudava “a história das revoluções, economia política, filosofia”, em que havia grupos de história e “cada um inscrevia-se no grupo que queria”. Aquilo era um colectivo plural de gente. Eram os homens do assalto ao Quartel de Beja, eram os homens do MPLA, eram os homens da Frelimo, eram os homens da FAP. Eu era do MRPP e, portanto, aquilo era um colectivo relativamente plural, muito solidário, com muita vontade de aprender. Foi um tempo extremamente frutuoso, até porque tínhamos tempo para estudar, para ler, para nos documentarmos, havia grupos de discussão. E, depois, quando havia lutas a fazer, nós uníamo-nos. (...) As cadeias eram centros de organização política. Quer dizer, nas cadeias, nós preparávamo-nos para continuar a luta a seguir, para nos informarmos, para nos documentarmos. Um ou outro desistia, mas a maioria das pessoas que saíam dali era para continuar. E assim foi comigo. Antes de ser levado para a cadeia do Forte de Peniche, Fernando Rosas passou pela tortura do sono nas novas instalações da PIDE, no reduto sul do forte de Caxias. Eu entrei directamente na tortura do sono e fiz logo oito dias seguidos sem dormir. Depois deixaram-me dormir. Deixaram-me ter uma visita com a família da parte da manhã e, mal acaba a visita, segunda vaga de tortura do sono! E depois a mesma coisa. Deixa dormir um dia, vem a família e terceira! Tive três sessões de tortura do sono. A que durou mais tempo foi essa de oito dias, e depois eles largaram-me. Mas eles queriam-me mesmo prender e queriam-me prender por muito tempo. Acusavam-me de estar ligado à fundação do MRPP, acusavam-me também de ligações à Esquerda Democrática Estudantil, mas não tinham elementos... Quer dizer, eu não tinha dito nada. Mas levaram-me a julgamento na mesma e eu fui julgado em Outubro de 1971 e fui condenado a 14 meses de...

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BD em francês conta “Revolução dos Cravos” às crianças

4/16/2024
A banda desenhada “La Révolution des Oeillets - 25 Avril 1974 - Le Jour de la Liberté” [“A Revolução dos Cravos - 25 de Abril de 1974 – O Dia da Liberdade”] conta a história da ditadura portuguesa e do golpe militar que a derrubou a 25 de Abril de 1974. A obra, da autoria de Sandra Canivet da Costa e com ilustrações de Jay Ruivo, está escrita em francês, é destinada a leitores a partir dos seis anos e sai a 24 de Abril em França e na Suíça. RFI: O que conta esta banda desenhada? Sandra Canivet da Costa, Autora da BD “La Révolution des Oeillets - 25 Avril 1974 - Le Jour de la Liberté”: "Quis fazer uma amostra às crianças do que era o salazarismo, a ditadura porque para as crianças que nasceram num país livre como a França ou a Suíça é difícil imaginar o que era. No início, a Matilde, nascida em França, está sempre a fazer comparação entre França e Portugal porque ela foi educada em França. Ela pergunta se o 25 de Abril é como a tomada da Bastilha. Então o avô vai explicar que não havia Bastilha como em França, mas efectivamente houve presos políticos que foram libertos. O avô vai explicar que no salazarismo não se podia ler o que queríamos. Não se podia dizer o que queríamos. Até o Ruben reage quando o avô diz que as mulheres não podiam viajar sem autorização do marido e o Ruben, que nasceu no Luxemburgo, diz que a mãe não teria gostado. Então, é mostrar as realidades do dia-a-dia do salazarismo e depois contar o que aconteceu, como é que os capitães se organizaram. É uma banda desenhada que também dá os factos, hora por hora, desse famoso dia, como esses capitães eram jovens e mostrar às crianças como é que em 24 horas a ditadura acabou. É assim uma viagem para as crianças." Fez uma banda desenhada destinada a crianças, que também é contada por crianças. Em quem se inspirou para fazer a Matilde e o Ruben? E porque é que decidiu contar esta história com duas crianças que viajam no tempo com o avô para perceber como é que era Portugal há mais de 50 anos? "O Ruben e a Matilde nasceram em 2020 e são os heróis do meu primeiro livro, “A Extraordinária História de Portugal”. A Matilde foi desenhada com uma fotografia da minha prima, mas sou eu porque eu fui uma criança da terceira geração aqui em França, e fui uma criança curiosa da história, mas que não tinha muitos livros em português. É por isso que as analogias que sempre faz a Matilde entre a França e Portugal sou eu porque eu sempre fiz assim. O Ruben, que nasceu no Luxemburgo e que é o herói também da “Extraordinária História de Portugal”, foi desenhado com fotografias do meu filho. Mas ele, como não nasceu em França, era para sair desta análise, sempre francesa, porque há portugueses também no Luxemburgo, na Suíça, na Alemanha... E às vezes tenho de pensar o que é que pensaria uma criança nesses países não influenciada pela educação francesa. Então nasceram assim as duas crianças." Foi também uma tentativa de preencher, de certa forma, um vazio na edição juvenil francófona? Fala-se sobre a história de Portugal na literatura juvenil francófona? "Pouco. É justamente isso. Quando escrevi o meu primeiro livro, “A Extraordinária História de Portugal”, foi devido a uma vontade de explicar a história às crianças em francês e procurei livros na internet. Fui ver até em Portugal se havia qualquer livro traduzido em francês e não encontrei. É por isso que agora estou a pensar com a editora Cadamoste Éditions, a minha editora…" Cadamoste Éditions é a editora que a Sandra fundou. "Sim, que fundei para o primeiro livro e quero mesmo especializar a Cadamoste Éditions em livros para crianças. Este, por exemplo, “A Revolução dos Cravos”, vai ser o primeiro de uma colecção que se vai chamar “L'Histoire du Portugal avec Matilde et Ruben” [“A História de Portugal com Matilde e Ruben”]. Este é o primeiro número, vai haver dois ou três por ano e também vamos publicar livros para ensinar as crianças a falar português. Então vamos começar com os pequenotes, a aprenderem palavras...

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Gaza: "Civis são a questão mais importante, o Hamas sabe disso e Israel também"

4/5/2024
Apesar de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que apela a um cessar-fogo imediato, os combates na Faixa de Gaza continuam, seis meses depois do início da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel, a 7 de outubro. O coordenador de mestrado de Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi, Ivo Sobral, defende que "os civis em Gaza são a questão mais importante. O Hamas sabe disso. Israel sabe disso". RFI: Em seis meses contam-se, segundo dados do Hamas, 33.000 mortos e 75.000 feridos, uma crise humanitária se precedentes, 130 reféns israelitas e estrangeiros nas mãos do Hamas sem trégua à vista? Ivo Sobral: Exactamente. Apesar de podermos estar mais próximos de uma provável cessação ou então diminuição desta guerra, talvez nos próximos meses. Este verdadeiro terramoto que aconteceu no passado Outubro teve consequências enormes na Palestina, em Israel e em todo o Médio Oriente, assim como aqui, aqui no Golfo e no Mar Vermelho. Estamos neste momento ainda numa situação de impasse completo, onde os vários negociadores qataris e egípcios, israelitas e norte-americanos continuam a demonstrar que existe uma enorme crise em somente negociar as primeiras bases de um cessar-fogo. Apesar disto, pela primeira vez historicamente, temos as declarações de um Presidente americano a apelar e exigir um cessar-fogo imediato. É bastante significativo e histórico que isto esteja a acontecer neste momento. Benjamin Netanyahu continua a ofensiva contra Rafah, no sul da Faixa de Gaza, o último bastião do Hamas, de acordo com Israel, e está a aumentar os ataques aéreos. Como dizia, o Presidente norte-americano e o primeiro ministro de Israel voltaram a falar ao telefone. Joe Biden disse que a política dos Estados Unidos em relação a Israel pode mudar. Netanyahu está cada vez mais isolado na cena internacional? Exactamente. É uma tendência já há vários anos, mas neste momento ainda sobra cada vez mais. Israel e particularmente este governo de Netanyahu, sucessivamente ignoraram vários jogadores internacionais aqui no Médio Oriente, na Europa, nos Estados Unidos e outras geografias, permanecendo completamente surdo relativamente a estas críticas que continuaram a chover durante estes seis meses e em particular neste último mês, onde a situação de facto humanitária sem precedentes e com a última gota foi este ataque a morte destes operadores de ONG. Esta situação era completamente inaceitável pela comunidade internacional e muito provavelmente, a continuação destes mesmos ataques irão desencadear provavelmente maiores consequências para Israel. Talvez consequências duradouras a longo prazo, ataques. Ataques que têm vindo a ser condenados pela comunidade internacional. Vale tudo numa guerra como esta? Infelizmente, pelo menos se tentarmos um pouco simular o que passa um pouco pela leadership israelita em termos de pensamento estratégico: como o inimigo é um inimigo bastante difícil de descrever, detectar e isolar, como neste caso os terroristas do Hamas. De facto, Israel usa tudo o que tem no arsenal e continua com esta determinação de atacar este mesmo território de Rafah, a última zona isolada de Gaza. No entanto, infelizmente, todo este tipo de combate, onde forças se encontram no meio de civis, é óbvio que as baixas civis são enormes. Isto era uma certeza nos últimos seis meses, os civis em Gaza são a questão mais importante. O Hamas sabe disso. Israel sabe disso. Israel vê do ponto de vista estratégico e quase do ponto de vista existencial, esta determinação como sendo quase um factor importante da sua preservação de Israel no Médio Oriente. Portanto, os israelitas verificam que têm que ir para a frente. Não existe um retrocesso, uma pausa na ofensiva no ponto de vista dos israelitas e um acto covarde em relação ao Hamas. Isto está bem patente nos últimos discursos, não só de Netanyahu, mas como também os vários governos dos vários partidos ultra-direita israelitas ortodoxos que o apoiam. Basicamente, Netanyahu...

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Guiné-Bissau: Liga dos Direitos Humanos apela à criminalização do feminicídio

4/4/2024
A Liga Guineense dos Direitos organizou uma vigília esta quarta-feira, 3 de Abril, ao final do dia para denuncia o aumento de casos de feminicídio na Guiné-Bissau. A vigília teve por lema “Cinco minutos de silêncio, em homenagem às duas mulheres assassinadas na região de Gabú”. O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humano, Bubacar Turé, denuncia a política de silenciamento do governo guineense. RFI: A vigília acontece depois de terem sido registados dois crimes em duas semanas e depois de cinco mulheres terem sido mortas assassinadas em 2022. A Liga dos Direitos Humanos alerta para a necessidade de introduzir no Código Penal guineense o crime de feminicídio. É isso que está em causa hoje, alertar e denunciar estas situações? Bubacar Turé: Sim, a vigília tem esse objectivo por um lado manifestar o nosso repúdio aos acontecimentos que tiveram lugar em Gabú, que consideramos actos criminosos, mas também foi uma oportunidade para alertar as autoridades nacionais sobre a urgente necessidade de agirem em várias dimensões. De um lado, reforçar o quadro jurídico nacional sobre esta matéria, que passa necessariamente pela criminalização do feminicídio. O homicídio é um crime na Guiné-Bissau, mas nós entendemos essa parte concreta de especificar a morte das mulheres. As mulheres são mortas só pelo facto de serem mulheres. E isso tem outros aspectos, outros detalhes que devem ser legislados. Por enquanto nós não temos isso, por isso é que nós avançámos com esta proposta ao governo. Entendemos que o governo da Guiné-Bissau não pode, de forma alguma, continuar com o comportamento de silêncio perante este tipo de actos; da rejeição e da condenação política e formal das autoridades nacionais. É preciso que o governo adopte estratégias holísticas abrangentes para combater estes tipos de fenómenos na sociedade. Não tem sido o caso. Temos vários documentos estratégicos que foram aprovados no passado, por exemplo, a política nacional da equidade e igualdade de género, mas que foram engavetados, nunca foram implementados, nem nunca foram mobilizados recursos para a implementação dessas estratégias que visam o fortalecimento da igualdade de género. A questão de equilíbrio em termos de relações de poderes entre homens e mulheres na sociedade guineense e também a própria violência baseada no género. Não há nenhuma estratégia nacional pública neste domínio. Portanto, tudo aquilo que tem sido feito nas mãos das organizações da sociedade civil, ou seja, o Estado renunciou à sua missão neste domínio, o que para nós é lamentável e inaceitável. Fala de silenciamento. O que se sabe sobre estas duas mortes em Gabú e sobre a resposta por parte da Justiça guineense? Sim, a primeira morte foi a uma senhora que foi violada sexualmente. De seguida, o violador, disparou mortalmente contra a vítima porque a vítima terá reconhecido e terá advertido que conhece a pessoa e vai denunciá-lo, em consequência, para evitar isso, ele disparou contra ela. As informações disponíveis são que este senhor já se encontra detido em Gabú. O segundo caso é o marido. Foi na sequência de uma violência doméstica em que ele esfaqueou mortalmente a esposa. As imagens que nós temos são muito, muito chocantes. É incrível que um ser humano, alguém no seu perfeito juízo, possa agir daquela forma como o homem agiu. As duas pessoas são distintas neste momento. O nosso problema não são as detenções porque as pessoas são sempre detidas quando há esses tipos de casos. O problema são os procedimentos, as tramitações processuais, que muitas vezes culminam com a impunidade. As pessoas são libertadas e nunca mais são julgadas e os casos ficam impunes. Nós denunciamos os cinco casos de 2022 em que, até hoje, não houve julgamento. É preciso combater a impunidade na Guiné-Bissau e criar mecanismos para combater as práticas que denuncia? Lamentavelmente, a impunidade é uma das maiores instituições na Guiné-Bissau, não só neste domínio, mas em vários outros na corrupção, nas violações...

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Angola: Governo está disponível para negociar com sindicatos

3/22/2024
Em Angola termina nesta sexta-feira, 22 de Março, a greve geral de três dias convocada pela Força Sindical União Nacional dos Trabalhadores, Confederação Sindical e a Central Geral de Sindicatos Independentes e Livres de Angola, exigindo nomeadamente aumentos do salário mínimo. António Estote, ponto focal do grupo Técnico do Governo de Angola nas negociações com os sindicatos, explica as questões que bloquearam as negociações, porém confirma que o executivo continua aberto ao diálogo. RFI : Que balanço faz das negociações com as três centrais sindicais angolanas? António Estote, ponto focal do grupo Técnico do Governo angolano nas negociações com os sindicatos: De uma forma geral, nos principais pontos, estamos a falar de cerca de 80% dos principais pontos, foi encontrado um consenso entre as partes. Houve alguma flexibilidade, por parte dos sindicatos e por parte do Governo. Todavia, os sindicatos condicionaram o acordo como um todo aos 20% nos quais faltou consenso. Na verdade, os sindicatos reivindicam cinco pontos ligados às questões remuneratórias e um ponto muito genérico para cada departamento ministerial. Estamos a falar de Saúde, Educação, ensino superior e outras questões ligadas às relações e condições de trabalho e ao diálogo social. Relativamente às questões de diálogo social, quase todos os pontos foram atendidos. Uma das exigências é o aumento do salário mínimo. Toda a gente sabe que Angola é um dos países mais caros do continente africano. Como é que se vive com cerca de 30 euros? Fazendo essa comparação directa com dólares ou euros, há produtos onde não se faz essa paridade. Estamos a falar de cortar o cabelo, produtos produzidos localmente… As condições de vida, sobretudo do poder de compra dos angolanos que recebem salário mínimo, é relativamente baixa.O que nós estamos a pensar é aumentar este valor, mas de tal forma que este valor não venha depois aumentar a inflação. E esse aumento seria de quanto? Estamos a trabalhar com um intervalo relativamente entre 50 a 100%. Agora, o grande desafio é identificar grupos específicos em que o incremento não pode ser substancial, porque, apesar de serem actualmente cerca de 36 euros (…) muitas empresas não têm dinheiro para pagar um salário mínimo. Estaríamos a falar de 32 mil para 40 mil kwanzas. Vamos supor 32 para 50 kwanzas para as micro-empresas, 60 mil kwanzas para as pequenas empresas, 30 mil kwanzas para as médias empresas e para as grandes empresas 100.000 kwanzas. Mas para dizer que o salário mínimo é o referencial, o patamar mais baixo. As empresas e as famílias, em função das suas condições financeiras, muitas delas pagam acima deste valor. Qual foi a resposta das centrais sindicais? As centrais sindicais recuaram. Eles saíram dos 245 mil kwanzas e foram para até 100%. Só que eles não querem esta distinção entre tipo de empresa, eles querem um aumento de 100% para todos. Nós como queremos salvaguardar o emprego e alguma actividade económica em determinados sectores críticos, como a agricultura, estamos a negociar para termos um salário mínimo diferenciado por tipo de empresa. E os 100% de aumento que os sindicatos exigem serem apenas para as grandes empresas. Nestas negociações o factor fracturante, que levou os sindicatos a não assinarem o acordo, foi o aumento do salário da função pública. Qual a razão do reajuste do salário da função pública ser factor fracturante? Actualmente, se olharmos a para a nossa despesa, as remunerações e salários correspondem a 3 bilhões de kwanzas. Com o aumento de 25%, nós vamos chegar a 9/10 bilhões, para arredondar. Dez bilhões de kwanzas representam 90% das nossas receitas fiscais, incluindo as petrolíferas. Aumentando esse montante, com os níveis de IRT que nós temos de receita, estamos a assumir que vamos ter que nos endividar para pagar salários. Isto do ponto de vista de gestão financeira, seja privada ou pública, não se pode financiar as despesas de curto prazo, nem despesas correntes - nesse caso fixas -...

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Lyz Parayzo, a artista que transforma a violência em escultura

3/21/2024
A artista e activista brasileira Lyz Parayzo está em destaque na exposição “100% L’Expo”, em Paris, que junta cerca de 50 artistas emergentes, de 27 de Março a 28 de Abril. Lyz Parayzo foi convidada para criar uma instalação que ocupa o exterior do edifício, com esculturas móveis metálicas e suspensas, em forma de espiral e com pontas cortantes, que remetem para a violência de que ela é vítima devido à sua identidade transfeminina. A arte é um lugar de militância e de luta para a brasileira Lyz Parayzo porque é um espaço onde os corpos dissidentes e não normativos estão, ainda, pouco representados. Nascida em 1994, Lyz Parayzo concebe as suas obras como “um cavalo de Tróia” para infiltrar espaços de poder e abrir horizontes. A partir de uma perspectiva autobiográfica, a artista cria esculturas que representam a sua experiência quotidiana de violência e de opressão por ser uma pessoa trans. Nesse sentido, a sua arte é “uma arma”. É uma arma para criar um debate público e político sobre determinados corpos na sociedade. Aqui, por questões de segurança, os móbiles estão flutuando... Mas quando os fiz na Beaux-Arts, eles estavam perto do corpo, giravam muito forte com motores e podiam cortar. Então as pessoas tinham medo. E é justamente isso. O meu corpo, às vezes, cria um lugar de medo porque as pessoas podem desejá-lo, sendo que não é permitido desejar ou amar uma mulher trans. Lyz Parayzo estudou nas Belas-Artes de Paris, após uma formação em Artes Cénicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e em Artes Visuais na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Brasil. Em 2019, deixou o Brasil, que sublinha ser “o país que mais mata pessoas trans há 15 anos”, e mudou-se para França. Admite que saiu por “razões políticas” e para poder assumir plenamente a sua identidade. Quando começou o governo Bolsonaro, as pessoas faziam sinais de arma para mim, na mão. Começou a ser muito violento. Antes de eu ir para França, raspei a minha cabeça porque eu não conseguia sustentar a feminilidade do meu corpo. Tive que sair do meu país para poder ser eu. E também porque Bolsonaro fechou o Ministério da Cultura. Então, ao mesmo tempo que era muito perigoso ser uma pessoa trans no Brasil, com um governo de extrema-direita, militar e fascista, também era muito difícil ser artista porque teve um boicote para a cultura. Com a instalação colocada à entrada da Grande Halle de La Villette, em Paris, Lyz Parayzo está em destaque na “100% L’Expo”, uma exposição dedicada a jovens artistas recém-diplomados e que vai estar patente de 27 de Março a 28 de Abril. A obra que ela criou “in situ” chama-se “Tempête Magique” e parte da série que ela fez, em 2022, intitulada “Cuir Mouvement”. As espirais em inox e alumínio, em grande escala, estão suspensas e, ao girarem, reflectem formas ondulantes cor-de-rosa no espaço. Estas serras giratórias ou "móbiles" são objectos dentados e, na instalação inicial, estavam mais perto do público, o que suscitava uma ameaça de lesão física, atraindo e repelindo ao mesmo tempo o espectador. “Como o meu corpo”, diz Lyz Parayzo. A minha escultura, que tem um lugar de beleza, que brilha, que seduz, que gira e tem luz rosa, ao mesmo tempo, ela pode cortar justamente para criar um debate público sobre os corpos que não são cisgénero, que são racializados e que se veem diariamente. (…) Eu resolvi fazer esculturas que colocassem o público vulnerável para eles saberem a sensação que é ter o meu corpo. A artista inspira-se no constructivismo e na arte cinética para criar novas formas de abstracção queer. Lyz Parayzo realizou“performances de guerrilha”, sem avisar, em museus para “problematizar a ausência de corpos racializados e não cisgénero nos espaços das artes”. Oriunda de uma família de ourives, ela começou por fazer o que chamou de “joias bélicas” que são “objectos de autodefesa” que dialogam com a herança do concretismo e neoconcretismo brasileiro dos anos 60, nomeadamente com Waldemar Cordeiro e Lygia Clark....

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Antigo membro da LUAR conta a fuga de Palma Inácio da prisão no Porto

3/20/2024
Fernando Pereira Marques ajudou o histórico líder da LUAR, Hermínio da Palma Inácio, a fugir da prisão da PIDE no Porto, em Maio de 1969, graças a umas serras que lhes chegaram dentro de uma agenda almofadada e que depois esconderam em latas de leite em pó, mas também em pão e pantufas. Nos 50 anos do 25 de Abril, o autor de “Uma Nova Concepção de Luta” conta-nos a história dessa evasão e recorda momentos-chave desta organização de luta armada contra a ditadura portuguesa. Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Fernando Pereira Marques, antigo membro da LUAR, Liga de União e de Acção Revolucionária, e autor, nomeadamente, de “Uma Nova Concepção de Luta”. “Era preciso serrar mais uma grade. E mesmo assim, ainda hoje me interrogo como é que ele conseguiu sair? Porque foi por um buraco minúsculo, não é?”, começa por contar Fernando Pereira Marques que ajudou Hermínio da Palma Inácio, líder histórico da LUAR, a fugir da cadeia da PIDE do Porto, em 1969. À luz dos dias de hoje, serrar grades de prisão parece algo fílmico, mas aconteceu. Esta história foi mais uma tremenda derrota para a PIDE e a segunda vez que Hermínio da Palma Inácio fugia de uma prisão. Algum tempo depois, ele seria descrito como “o homem mais procurado da Europa” pelo jornal Sunday Times. Palma Inácio é um símbolo da luta antifascista e fundador da LUAR, em 1967. Vinte anos antes, tinha sabotado aviões militares na tentativa do Golpe dos Generais e, em 1961, desviou um avião da TAP para lançar sobre Lisboa e outras cidades panfletos contra o regime ditatorial. A bordo do aparelho estava também Camilo Mortágua que participara no assalto ao paquete Santa Maria, no mesmo ano, e que viria a acompanhar Palma Inácio na primeira acção da LUAR: o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967. A LUAR foi uma das organizações de luta armada contra a ditadura portuguesa e algumas das suas acções fizeram tremer o regime. Foi também o caso da própria fuga de Palma Inácio da prisão, depois da tentativa frustrada, em Agosto de 1968, da tomada da cidade da Covilhã. A detenção aconteceu por acaso e a polícia estava a léguas de imaginar que ia capturar Palma Inácio. O objectivo da acção era, mais uma vez, expor as fragilidades do regime, distribuir propaganda, ocupar a rádio local, neutralizar os postos da GNR e da PSP, levando as armas, e recuperar fundos nas agências bancárias. Mas os planos não correram como previsto e vários operacionais foram presos. Na prisão, Palma Inácio pede à irmã para lhe fazer chegar uma dúzia de serras, recorrendo à ajuda de um membro da LUAR, Ernesto Castelo Branco, que afinal era informador da PIDE. Apesar de a polícia estar a par, as lâminas acabam por entrar na prisão de Caxias, na capa almofadada de uma agenda. Em Caxias, as grades eram muito grossas, mas na prisão da PIDE no Porto, a história era outra... e a ajudá-lo a serrar as grades da cadeia estava Fernando Pereira Marques que nos contou essa fuga. As serras acabaram por lhes chegar às mãos, ainda que a PIDE estivesse a par, algo que deixa Fernando Pereira Marques ainda estupefacto pela “total incompetência” da polícia política. Primeiro, a agenda foi entregue na prisão de Caxias e depois de a recuperar e retirar as serras escondidas, a dupla arranjou formas de as dissimularem: um lote em latas de leite em pó, outro lote dentro de pães. Depois, aquando da transferência para a prisão da PIDE no Porto, levaram as serras numas “pantufas artesanais que o Palma tinha” e também nas latas de leite em pó. Quando foram transferidos para a cadeia da PIDE no Porto para serem julgados, ficaram os dois numa cela com um motorista que tinha simplesmente prestado serviços sem estar directamente implicado na LUAR. Fernando e Palma Inácio perceberam que a fuga era possível e fizeram o necessário. A evasão deu-se em Maio de 1969. [Oiça o podcast em que Fernando Pereira Marques conta alguns detalhes da preparação da...

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Fundador da LUAR conta tempos de resistência armada à ditadura

3/12/2024
Armando Ribeiro era chamado “comandante” pelos companheiros e “falsificador” pela PIDE. Foi um dos fundadores da LUAR, Liga de União e de Acção Revolucionária, e, aos 80 anos, conta-nos algumas das acções deste grupo de resistência armada à ditadura portuguesa. Armando Ribeiro viveu seis anos na clandestinidade, escapou à prisão, transportou armas 3.000 quilómetros Europa fora, participou na tentativa frustrada de tomada da Covilhã e no assalto a Consulados de Portugal para obter passaportes. Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Armando Ribeiro, um dos fundadores da Liga de União e de Acção Revolucionária (LUAR). Os que o conheciam de perto chamavam-lhe “comandante”. Os que o queriam prender vociferavam: “Esse falsificador!”. Nesses tempos de clandestinidade e de luta contra a ditadura portuguesa, poucos sabiam o nome deste homem, hoje com 80 anos. O Inácio Afonso, que era um tipo da PIDE, dizia: ‘Esse fulano! Esse falsificador! A gente até vai buscá-lo a Paris se for preciso!’. Mal eles sabiam que se a gente quisesse os tínhamos liquidado! ‘A gente vai buscá-lo a Paris, esse falsificador!’. Nem conhecia exactamente o meu nome. Só conhecia ‘comandante’. Ninguém sabia o meu nome. Eu acho que nem o Palma sabia o meu nome completo. Chama-se Armando Ribeiro e foi um dos fundadores do movimento antifascista LUAR, a Liga de União e Acção Revolucionária. Um dos dirigentes do grupo era Hermínio da Palma Inácio que, em 1947, participou na sabotagem de aviões da Força Aérea; em 1961, também participou no desvio de um avião para lançar panfletos contra a ditadura sobre Lisboa e outras cidades, junto com Camilo Mortágua. Este já tinha estado no desvio do paquete Santa Maria, no mesmo ano. Ambos estiveram na linha da frente do assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967. E foi o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz que levou à fundação da LUAR, em Paris, onde já se encontrava Armando. O jovem tinha deixado Portugal três anos antes. Estudante do Instituto Comercial do Porto, onde era dirigente da associação académica, Armando Ribeiro ficou em Paris durante uma visita de estudo de finalistas em Março de 1964 porque recusava ir para a guerra colonial combater pessoas que lutavam pela sua independência. Inscreveu-se na escola de Arts et Métiers e trabalhava à noite no PBX de um prédio. Poderia estudar durante o dia, ter uma vida boémia, mas trocou o conforto pela luta. Muito novo ainda, foi o braço direito de Hermínio da Palma Inácio, em Paris, dirigente do Conselho Superior do movimento e criador do seu símbolo - o “L”, com uma seta ascendente. Comprou armamento, transportou um arsenal de armas 3.000 quilómetros Europa fora, participou no assalto a consulados para obter passaportes e ajudou a preparar os chamados “confiscos” para custear muitas vidas na clandestinidade. Como os companheiros, pôs a vida em perigo nome de um ideal e esse ideal chamava-se LUAR. “A LUAR foi uma organização que começou pela luta armada porque todas as pessoas que integravam a LUAR já tinham participado em coisas de luta armada, como o desvio do Santa Maria. Portanto, foi aí que comecei, foi com essa gente toda”, começa por explicar, sublinhando que era uma organização apartidária, claramente “fora do Partido Comunista Português” e que defendia a acção directa e o recurso às armas para o derrube da ditadura e a restauração da democracia. As origens da LUAR Conta, ainda, que na génese do movimento estiveram personalidades como Henrique Galvão e até Humberto Delgado, com iniciativas de acção directa contra o regime, nomeadamente depois do “terramoto” da candidatura presidencial do “General Sem Medo”. Humberto Delgado esteve directamente envolvido na Revolta de Beja na passagem de ano de 1961 para 1962. Henrique Galvão esteve em várias outras acções com impacto internacional de grande peso, para as quais contou com o apoio essencial da dupla Palma...

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Joaquim Alberto: O diácono que apontou armas da LUAR à ditadura

3/12/2024
Joaquim Alberto Simões diz que “os ditadores riem-se dos papéis”, por isso, resistiu ao regime ditatorial português sob a bandeira da LUAR, a Liga de União e Acção Revolucionária. Antigo diácono e seminarista, Joaquim Alberto não aceitava que um regime político submetesse o povo à repressão, à miséria, ao analfabetismo e ao castigo permanente. Aos 85 anos, contou à RFI algumas das acções em que participou para fazer tremer o Estado Novo. Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI falou com vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Joaquim Alberto Simões, antigo membro da LUAR. A conversa acontece na casa de um amigo de Joaquim Alberto. Luís Vaz escreveu vários livros sobre a LUAR e acolhe-nos em Lisboa com a generosidade de quem cuida há muitos anos de uma causa: a da memória. Uma causa comum às diferentes personalidades da LUAR com quem falámos, unidas por elos de amizade que persistem mais de 50 anos depois e determinadas em lembrar aqueles que, entretanto, morreram. Joaquim Alberto Simões resistiu ao regime ditatorial português sob a bandeira da LUAR, a Liga de União e Acção Revolucionária. Antigo diácono e seminarista, Joaquim Alberto não aceitava que um regime político submetesse o povo à repressão, à miséria, ao analfabetismo e ao castigo permanente. Como sabia que “os ditadores riem-se dos papéis”, decidiu agir. Entrou na LUAR, que foi uma das organizações de luta armada contra a ditadura, fundada em Paris. O objectivo era fazer acções armadas contra o regime e sabotar os meios usados na guerra colonial, mas sem visar pessoas. Algumas das acções da LUAR fizeram tremer o fascismo a partir de 1967. Foi o caso do assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz e o assalto e roubo de armas no quartel de Évora, nesse mesmo ano. Houve, também, a tentativa de tomada da cidade da Covilhã, em 1968 e, em 1969, a sabotagem de corvetas em Hamburgo para impedir que elas fossem colocadas ao serviço da guerra colonial. Destaque, ainda, para os assaltos a consulados de Portugal em Roterdão e no Luxemburgo, em 1971, para obter, à força, documentos de identificação para circular e combater na clandestinidade. Joaquim Alberto Simões recorda-nos essas acções. O Consulado de Roterdão estava fechado no dia em que foi [era feriado] e Joaquim Alberto e o seu grupo tiveram de “arrombar a porta”. De lá tiraram “selos brancos, passaportes por preencher" e outros documentos para facilitar a circulação dos que lutavam na clandestinidade. Depois, repetiram a acção no Consulado do Luxemburgo e, fruto de várias circunstâncias curiosas e da ajuda de outro camarada, Rafael Galego, na véspera do assalto, Joaquim Alberto dormiu na casa do primeiro-ministro luxemburguês. Ainda mais curiosa foi a forma como tomaram o consulado, escassos minutos antes de fechar. Espalharam “plasticina e fios eléctricos pelo chão” e “as pistolas não estavam carregadas” porque “ninguém ia com a intenção de matar”. “São armas que metem medo àquele que as tem porque sabe que não funcionam e metem medo ao outro que pensa que são verdadeiras”, conta Joaquim Alberto. Certo é que conseguiram sair de lá com o que necessitavam em termos de documentos e ninguém ficou ferido. Joaquim Alberto Simões conheceu de perto o homem que a escritora Natália Correia descreveu como “o último grande herói romântico”. Trata-se de Hermínio da Palma Inácio que esteve no acto fundador da LUAR, o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, em 1967. Vinte anos antes, já tinha sabotado avionetas numa tentativa de derrube do regime e, em 1961, desviou um avião da TAP para lançar sobre Lisboa e outras cidades panfletos contra a ditadura. A bordo do aparelho estava também Camilo Mortágua que participara no desvio do paquete Santa Maria [“Santa Liberdade”, como ficou conhecido], também em 1961, e que esteve, também, no assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz. Joaquim Alberto Simões entrou mais tarde para a LUAR e esteve em operações com Hermínio da...

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Francisco Fanhais e os tempos da gravação de “Grândola Vila Morena”

3/12/2024
Francisco Fanhais assumiu a música como uma forma de resistência à ditadura portuguesa e diz que “apanhou o comboio dos cantores que lutavam contra o regime”. Em 1971, estave com José Afonso, José Mário Branco e Carlos Correia no Château d’Hérouville a gravar a música que ainda hoje é o emblema da "Revolução dos Cravos": “Grândola Vila Morena”. Francisco Fanhais recorda-nos esse tempo. Nos 50 anos do 25 de Abril, a RFI publica entrevistas a vários resistentes ao Estado Novo. Neste programa, ouvimos Francisco Fanhais, presidente da Associação José Afonso, uma das vozes da música de intervenção portuguesa e que também foi aderente da LUAR, a Liga de União e de Acção Revolucionária. Francisco Fanhais foi um padre incómodo, assumidamente contra a guerra colonial, que não se calava. Nem na missa, nem nas aulas de religião e moral e muito menos nos discos que fez em Portugal: “Cantilena”, em 1969, e “Canções da Cidade Nova”, em 1970. Foi impedido de dar aulas, suspenso das funções de padre e, muitas vezes, impedido de cantar. Por isso, exilou-se em Paris entre 1971 e 1974. Foi para França à boleia com Zeca Afonso em Abril de 1971, participou em concertos para despertar consciências, esteve na LUAR, uma das organizações de luta armada contra a ditadura portuguesa, e só pôde voltar para Portugal depois da "Revolução dos Cravos". Algures entre Outubro e Novembro de 1971, às três da manhã, no Château d’Hérouville, acompanhou José Afonso, José Mário Branco e Carlos Correia na gravação dos passos que marcam o ritmo da música “Grândola Vila Morena”. Os quatro davam os famosos passos em cima de gravilha e tiveram de o fazer de madrugada para evitar o barulho dos carros ou outros ruídos que surgissem durante o dia. Horas mais tarde, gravavam a música que ficaria para a história e que foi a senha definitiva para o golpe militar que derrubou a ditadura portuguesa a 25 de Abril de 1974. RFI: Recorde-nos como decorreu a gravação de “Grândola Vila Morena”, em 1971, em França. Francisco Fanhais, Presidente da Associação José Afonso: Foi gravado em Hérouville. Estávamos os quatro a fazer os passos. O José Mário Branco, que era o director musical da gravação do “Cantigas do Maio”, o Zeca Afonso, o Carlos Correia, que era quem na altura acompanhava o José Afonso na viola, e eu. Estávamos os quatro então a fazer esses passos no estúdio que era no Château d’Hérouville. E pronto, “O povo é quem mais ordena”. Era a letra do poema que o Zeca tinha composto em 1964, de homenagem à Sociedade Filarmónica Fraternidade Operária e Grandolense. O Zeca tinha lá ido cantar, no dia 17 de Maio de 1964, e gostou muito do ambiente vivido nessa colectividade. E em homenagem a esse espectáculo que ele lá fez e à colectividade fez uns versos. Basicamente, foi o poema que ele compôs de homenagem à Sociedade Filarmónica Fraternidade Operária Grandolense. “O povo é quem mais ordena” e os militares… Imagino que teria sido talvez por causa deste verso - sou eu a imaginar porque se estivesse na pele deles era por estes versos que eu escolheria a música. Tinha sido uma música cantada um mês antes, num espectáculo público no Coliseu dos Recreios que passou à censura. Não repararam naquela. E então, por todas essas razões, foi a música escolhida para o sinal último musical para o desencadear das operações militares do 25 de Abril. Passou à meia-noite e vinte e assim que eles ouviram - todos aqueles que estavam de norte a sul, os militares implicados no Movimento das Forças Armadas para derrubar o fascismo - assim que ouviram na rádio, que era a única maneira de terem contacto de norte a sul era através de uma rádio que se ouvisse no país inteiro, não é? Não podiam telefonar, obviamente, porque estavam os telefones vigiados. Então, à meia-noite e vinte, quando o segundo sinal apareceu - o primeiro tinha sido o Paulo de Carvalho a dizer “E depois do adeus” - quando eles ouviram aquilo, cada um foi cumprir o papel que lhe estava destinado na folha de serviço para...

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Mafalda conta nas redes sociais o quotidiano de uma negra em Portugal

3/11/2024
Mafalda Fernandes criou em 2021 uma conta no Instagram para denunciar e combater o racismo em Portugal, fazendo publicações sobre a discriminação na sua vida, mas também explicando conceitos e lembrando a história dos negros no Mundo. Mais tarde acabou por criar no Porto, a sua cidade natal, a primeira visita-guiada que mostra a história dos negros na Invicta. O combate ao racismo também se faz hoje através das redes sociais. Para denunciar o racismo vigente em Portugal, mas também desconstruir ideologias políticas ou ainda falar de movimentos globais, Mafalda Fernandes, uma jovem do Porto, criou o perfil “Quotidiano de uma negra” no Instragram onde já reúne uma comunidade de mais de 10 mil pessoas. "Eu acho que as redes sociais são muito importantes para partilharmos informação credível e informação que dificilmente instituições ou jornais muitas vezes não conseguem partilhar e portanto eu uso muito as minhas redes sociais, mais no sentido de criar consciência nas pessoas do que é que é ser uma vivência em Portugal como pessoa negra", explicou Mafalda Fernandes. Esta jovem activista que nasceu e cresceu no Porto, disse que desde que a extrema-direita começou a ganhar relevância em Portugal, a presença na internet já lhe valeu ameaças de morte. "Claro que eu acho que os ataques têm muito a ver com com a nossa exposição, não é? Apesar de tudo, as minhas redes sociais aparecem. Sinto que ultimamente os ataques são mais constantes, não tanto nas redes sociais, mas mais no meu dia a dia. Sinto uma insegurança muito maior na minha vida do que o que sentia no passado, nas redes sociais. No ano passado lembro-me de ter uma situação muito complicada, de uma ameaça de morte a que nunca tinha acontecido, mas aconteceu ali", indicou a jovem. De forma a acabar com a discriminação, segundo Mafalda Fernandes, falta ainda a sociedade portuguesa reconhecer o racismo vigente no país e haver uma maior atenção às necessidades das pessoas racializadas. "Primeiro, nós precisamos reconhecer que Portugal é um país estruturalmente racista para podermos ter qualquer tipo de medidas contra este racismo estrutural, nós temos que o reconhecer, não é? É algo que é muito difícil para muitos partidos de fazer. Depois temos a questão dos números. Nós não sabemos quantas pessoas negras vivem em Portugal e se nós não sabemos quantas pessoas negras vivem em Portugal, fica muito difícil avaliar quais é que são as necessidades deste grupo. Depois temos a questão da violência policial, que é muito pouco falada em Portugal", descreveu a activista. Este activismo nas redes sociais levou-a também a criar a primeira visita-guiada que mostra a história dos negros no Porto, que atrai pessoas vindas um pouco de todo o Mundo, mas especialmente muitos norte-americanos que querem saber mais sobre o tráfico de escravos iniciado por Portugal no século XV. No entanto, para Mafalda Fernandes esta foi uma forma de se aproximar de outras pessoas negras. "Esta visita é uma forma de eu me poder aproximar mais a outras pessoas negras aqui na cidade do Porto e perceber também qual é que é a vivência delas. O objectivo principal é que as pessoas que vêm, os meus clientes que aparecem nestas visitas que eu faço possam conhecer diferentes negócios negros aqui no Porto e que possam consumir nos mesmos, para também assim elevar a comunidade através daquilo que possa ser o seu poder económico, que também é algo muito importante numa sociedade capitalista", concluiu.

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Nova Direita de Ossanda Líber quer ser "ponte" entre PSD e Chega

3/4/2024
Após uma candidatura à Câmara de Lisboa e a deputada, Ossanda Líber ressurge na vida política portuguesa como fundadora do partido Nova Direita que situa entre o PSD e o Chega, defendendo quotas de imigração, mais contrução de casas e maior convicção nos valores ligados à família. Ossanda Liber é a cabeça de lista e fundadora do partido Nova Direita, que no dia 10 de Março concorre às eleições legislativas em Portugal. Em 2021 concorreu à Câmara Municipal de Lisboa com o movimento "Somos Todos Lisboa" e em 2022 voltou à ribalta política ao ser candidata pelo partido Aliança ao Círculo da Europa. Em entrevista à RFI, a partir da sede do Nova Direita no centro de Lisboa, a candidata defende que o seu partido se posiciona politicamente entre o PSD e o Chega, estando disposta a servir de ponte entre estas duas forças para que a direita volte ao poder. "Queremos representar uma série de pessoas que como nós tem essa visão de Portugal, dos valores, da família, etnão porque não criar um partido, na medida em que não havia nenhum em nos pudessemos inserir. E é aí que nos encontramos, com um PSD muito virado para a esquerda e um Chega que se torna inaudível, que faz o trabalho de protesto, mas não tem ideias de fundo para a resolução dos problemas", disse a candidata. A Nova Direita quer assim "servir de ponte" à direita do espectro político português, acusando, no entanto, o Chega de não manter uma constância nas suas propostas, nomedamente no que diz respeito à imigração. "O André Ventura oscila muito sobre o tema da imigração, chegou a ser muito duro e agora, de repente, perto das eleições, começa a suavizar o discurso. Ele não tem nenhuma solução concreta e nós achamos que é absurdo pensar que a imigração não é necessária, mas não pode ser de qualquer maneira. Precisamos de saber que pessoas são, que lacunas é que vêm preencher aqui? E como vão viver? E como é que o país as vai integrar. É por isso que achamos que é preciso uma selecção", declarou. Uma das suas propostas com mais destaque é a imposição de quotas de imigração em Portugal tendo sobretudo em conta a "pertinência económica" e a "proximidade cultural" dos imigrantes. No entanto, a candidata refuta que estas propostas tenham qualquer carisma racista ou xenófobo. "Nós não temos medo de falar de assunto nenhum. [...] Se falar sobre imigração é ser xenófobo, é ridículo. Nós falamos sobre os temas. É muito difícil atribuir-em qualquer caracterísitica xenófoba como é óbvio e eu sinto legitimidad eporque eu própria venho da imigração", indicou. Ossanda Líber diz estar de acordo com a livre circulação na CPLP, mas que esta liberdade não deve servir apenas para facilitar a imigração para Portugal, devendo primeiro aprofundar a "cooperação económica" e as "trocas culturais" entre os países lusófonos. Já para a habitação, um dos temas que mais preocupa os portugueses, em conjunto com um maior conhecimento sobre as casas devolutas que pertencem ao Estado e a revisão das zonas Reserva Ecológica Nacional que não permitem construção, a Nova Direita defende que se criem mais alojamentos. "Não há casas? Tem de haver casas. A única lei que vigora e funciona no mercado imobiliário é a procura e a oferta. Portanto se temos mais procura que oferta, temos que aumentar a oferta. O Estado pode intervir como quiser, mas os proprietários privados se não quiserem pôr as casas no mercado, não põem e não os podemos obrigar", concluiu.

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"Acordos pretendem sinalizar que, para os europeus, a Ucrânia não está sozinha"

2/15/2024
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o Presidente francês, Emmanuel Macron, vão assinar um acordo de segurança entre os dois países esta sexta-feira, 16 de Fevereiro, no palácio do Eliseu. Segundo a investigadora de Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, Maria Ferreira, "estes acordos pretendem sinalizar que, para os europeus, a Ucrânia não está sozinha". RFI: O acordo surge poucos dias depois das declarações do novo chefe de Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia que descreve a situação militar da Ucrânia como "extremamente preocupante". Como é que interpreta esta declaração? Maria Ferreira: A Ucrânia está numa situação particularmente sensível devido à falta de artilharia e à falta de munições e às grandes linhas de frente, sobretudo ao nível da defesa aérea. Este acordo, que vai ser assinado entre a França e a Ucrânia, na presença do Presidente Volodymyr Zelensky, segue-se à necessidade que o Presidente ucraniano sente em recentrar a atenção na Ucrânia após, desde Outubro de 2023, depois da atenção mediática se ter-se centrado sobretudo no Médio Oriente. Este acordo cumpre os acordos prévios estabelecidos no contexto do G7 e da Cimeira da NATO, em Julho de 2023. Nessa altura, no verão de 2023, os membros do G7 não se comprometendo com a possível adesão da Ucrânia ao bloco, manifestaram o seu empenho em providenciar segurança à Ucrânia a longo prazo e que, no longo prazo, significa no mínimo de dez anos. Sendo que quer a França, quer o Reino Unido assinaram acordos bilaterais ou prometeram assinar acordos bilaterais com a Ucrânia no sentido de providenciar um pacote de ajuda que, no caso do Reino Unido, foi um pacote de 2,5 bilhões de libras a serem transferidas durante o próximo ano. Este é o maior pacote de ajuda britânica à Ucrânia desde o início da guerra, tratando sobretudo de ajuda militar com mísseis de longo alcance, drones, munições e segurança marítima e algo que para a Ucrânia fundamental, que é a segurança aérea. Estes acordos prevêem o fornecimento de equipamento militar moderno, bem como o treino de efectivos militares ucranianos, o que é particularmente importante numa altura em que se espera que a Rússia, agora com a primavera, desenvolva ofensivas de larga escala no território ucraniano. O Reino Unido foi o primeiro país a chegar a um acordo, durante a visita do primeiro-ministro britânico a Kiev em Janeiro. Até agora, os países da União Europeia não tinham dado esse passo. A França pode fazê-lo. A União Europeia está preocupada com a segurança dos países europeus? A União Europeia está preocupada porque está a chegar à conclusão que, do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a tradicional aliança europeia e norte-americana na gestão da segurança europeia que vem de 1949, que é a NATO, pode estar comprometida. A França tem sido um aliado da Ucrânia. Estava, aliás, previsto que Macron visitasse a Ucrânia ainda neste mês de Fevereiro. É muito importante dizer que Rishi Sunak visitou a Ucrânia em Janeiro e foi a sua primeira visita de Estado de 2024, o que é de assinalar. Estes acordos que a Ucrânia está a tentar assegurar assumem especial relevância quando as políticas e o avançar do caminho de Donald Trump para Washington está claramente a ser um entrave no empenho norte-americano em continuar a auxiliar a Ucrânia, tendo Donald Trump inclusive ameaçado a própria existência da Aliança Atlântica e, com as suas declarações, assumido aquilo que pode ser um futuro apoio inequívoco e um pouco paradoxal de Washington sob uma presidência de Trump a Moscovo. Quer a França, quer o Reino Unido têm pressionado os aliados europeus para a manutenção da ajuda à Ucrânia e têm preparado a indústria de defesa europeia para uma espécie de economia de guerra, ou seja, para o prolongamento da guerra. O que também vai, diga-se, aliás, estimular a produção de armamento que a Ucrânia precisa, desesperadamente, para conseguir segurar a sua...

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Eleições nos Açores terão leituras nacionais em Portugal

2/1/2024
O arquipélago português dos Açores tem eleições a 4 de Fevereiro: o primeiro escrutínio legislativo regional antecipado onde todos os cenários políticos parecem muito em aberto. A um mês das eleições legislativas antecipadas, a nível nacional, a votação açoriana será acompanhada de muito perto em Portugal inteiro. O descrédito dos partidos tradicionais, o reforço dos populismos e os jogos de alianças, à esquerda ou à direita, são componentes deste xadrez político. O facto de os Açores terem visto, de forma inédita, o seu Orçamento chumbado veio precipitar a queda da aliança de direita que se tinha constituído em 2020, por o partido socialista ter conseguido, então, apenas uma maioria relativa. O Chega, partido da direita radical, tinha integrado nos Açores uma coligação sob a batuta do Partido social democrata, da direita tradicional, facto inédito em Portugal. As sondagens prevêem resultados muito apertados, para a aliança de direita ou para o partido socialista e apontam para a necessidade de alianças. Numa altura em que a pobreza, a emigração, o abandono escolar fazem parte do dia-a-dia insular. E quando em Portugal, continental e insular, se preparam as eleições legislativas de 10 de Março após a queda do governo socialista, na sequência de casos de justiça envolvendo próximos do primeiro-ministro cessante, António Costa. E num contexto em que no outro arquipélago português, o da Madeira, a crise estar instalada com rusgas da Polícia Judiciária que precipitaram detenções e a queda do presidente do governo regional, da direita, ou do presidente da primeira câmara do território. Que leituras se podem fazer deste panorama ? A RFI falou com Rui Pedro Paiva do jornal Açoriano Oriental. Ouça aqui a entrevista.

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Espectáculo “Bate Fado” liberta o fado dos tempos da ditadura

1/12/2024
A peça “Bate Fado”, da dupla Jonas & Lander, é apresentada na Maison de la Danse de Lyon, no âmbito do lançamento, em França, das comemorações dos 50 anos da “Revolução dos Cravos”. Em palco, nove intérpretes - entre bailarinos, músicos e um fadista coreógrafo - resgatam a dança que o fado perdeu no século XIX para a devolver ao universo coreográfico do século XXI. Jonas & Lander abanam a catedral do fado conservador e deixam as portas escancaradas a uma festa pagã, onde todos são convidados. RFI: Cinquenta anos depois do 25 de Abril, “Bate Fado” é muito libertador. O que é que representa simbolicamente este espectáculo, quando o fado ficou tão agarrado à imagem da ditadura de "fado, futebol e Fátima"? Lander Patrick: Eu acho que o fado sofreu de uma grande questão que foi ser instrumentalizado pelo regime. Ele tinha uma certa vitalidade que foi transformada para ir de uma maneira mais alinhavada com os ideais ou com o que se tentava perpetuar pelo regime – e por António Ferro que era o principal responsável pela maquinaria cultural e pela propaganda cultural do Salazar. Mas claro que não foi só a partir daí que o fado sofreu alterações. Ele tem vindo a sofrer, mas ficou mais evidente no período em que houve certas características, como ter que se aprovar que letra é que se vai cantar, ter que se cantar de preto, uma série de características que aí ficaram muito vincadas. Mas ele já tinha vindo a sofrer alterações, tanto que a gente deixa de ver registos sobre a dança de fado a partir, mais ou menos de 1910, portanto, muito antes da ditadura. É um período em que estamos ali a entrar na queda da monarquia, gripe espanhola, primeira guerra mundial. Ou seja, se pensarmos que aquilo era uma manifestação praticada nas periferias, em lugares perigosos, uma possibilidade é que simplesmente se tenha dissolvido. Jonas Lopes: Este projecto fez-nos entrar num mundo de danças proibidas e perseguidas pelo sistema, o que acontecia muito recorrentemente nesta época, principalmente com as danças que tinham algum cariz afro e de escravos. No Brasil, ainda há um grupo que dança uma música chamada fado e essa dança é dançada em cruz, com sapateado e palmas, tal como nos registos, para se poder dançar nos dias festivos e nos dias religiosos. Supostamente os tambores também foram proibidos e o sapateado veio marcar o ritmo porque já não estavam de pé descalço, estavam com um tacão. Na ditadura, o que aconteceu foi que eles perceberam que não ia dar para extinguir o fado e realmente instrumentalizaram-no de uma forma muito subtil, como fizeram também com o folclore. Por exemplo, os fadistas e os guitarristas para poderem tocar em público, eles tinham que ter uma carteira de fadista profissional, ou seja, isto já ajudava o regime a ter as rédeas nas coisas porque as letras tinham que ser declaradas ao início da noite; a questão do preto tinha muito que ver com a elegância porque nos bairros problemáticos, onde havia fado, eles não se vestiam de preto, vestiam-se com cores e padrões e patilhas. Na ditadura, o que aconteceu foi mais isto: a instrumentalização do fado e do folclore e teres que ter uma carteira profissional de um júri do Estado que dava as carteiras profissionais. O fado que nos chega hoje é um bocadinho a herança disso. O facto de vocês, de certa forma, devolverem o carácter subversivo ao fado, 50 anos depois do 25 de Abril e cerca de 100 anos depois de ele ter perdido esse carácter festivo, significa também que vocês são, de certa forma, os filhos da “Revolução dos Cravos”? Lander Patrick: Eu acho que todas as pessoas que usufruem da democracia, como a temos agora, são filhos de uma luta, não é? Mas há a liberdade de criar e há a liberdade de ser subversivo e de devolver o lado, se calhar, mais pagão a coisas que até agora eram quase santificadas, como o fado... Jonas Lopes: Exacto e essa pergunta que fazes vem muito de acordo com quando nós estávamos a criar, eu sentia mesmo que estava a criar com outra entidade que não o...

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Paris 2024: Como se prepara a cidade para acolher a competição mais seguida do planeta?

1/1/2024
De 26 de Julho a 8 de Setembro, Paris acolhe a competição mais seguida do planeta. Os jogos Olímpicos e os paralímpicos mobilizam milhões entre atletas, imprensa e público. Neste magazine falamos da grandiosidade desportiva do evento e da forma como Paris se prepara para acolher esta edição dos JO. De 26 de Julho a 8 de Setembro, Paris acolhe a competição mais seguida do planeta. Os jogos Olímpicos e os paralímpicos mobilizam milhões entre atletas, imprensa e público. Um século depois a competição multidesportiva mundial regressa à Cidade Luz. É a terceira vez que Paris recebe o evento. A primeira vez foi em 1900 e a segunda em 1924. Em 100 anos o mundo mudou e os Jogos Olímpicos também. Algumas modalidades foram retiradas do evento e outras acrescentadas ao programa. Paris 2024 conta com 32 modalidades e 329 competições. Neste magazine falamos da grandiosidade desportiva do evento e da forma como Paris se prepara para acolher esta edição dos JO. Marco Martins, especialista em jornalismo desportivo na antena da RFI em português, sublinha que do ponto de vista pessoal, no ângulo do atleta, “ser campeão olímpico é acima de ser campeão do mundo”. Para muitos é o maior evento desportivo do mundo, simplesmente porque é um evento que reúne várias modalidades. Os Jogos Olímpicos são mais abrangentes porque há muitas modalidades diferentes e há modalidades nos dois sexos, masculino e feminino. Ainda por cima, qualquer atleta pode participar, precisa de fazer os mínimos. Do ponto de vista pessoal, para um atleta, ser campeão olímpico é acima de ser campeão do mundo. Os Jogos Olímpicos são todos os 4 anos, o que lhes acrescenta raridade. Além disso, muitos desses atletas não são profissionais, contrariamente aos outros desportos como o futebol americano ou o futebol dito europeu. Ao microfone da RFI, Hermano Sanches Ruivo, vereador da Câmara de Paris, explicou de que forma a capital francesa e arredores se preparam para acolher o evento que, durante cerca de um mês e meio, vai ter de lidar com um fluxo de 15 milhões de adeptos. Estamos a falar, sensivelmente, de um mês e meio. Não podíamos criar transportes para 15 milhões de pessoas que vêm para os Jogos Olímpicos. Temos de pensar como é que nos podemos adequar a um evento mundial como os JO. O principal factor é a paciência, ou seja, fazer com que as pessoas possam escolher saírem mais cedo e esperarem depois no espaço onde vão assistir às provas ou, então, terem que arcar com muito mais tempo de espera em função dos transportes. Na habitação, não vamos construir prédios para apenas resolver esta situação. Nós gostaríamos que houvesse muito mais oferta e, de resto, questionamos muito a política de construção nacional, porque há um défice de oferta para estudantes, seniores ou famílias. Agora, vamos ter que fazer com a “prata da casa”, e essa prata é consequente. Claramente, vamos viver uma situação de grande densidade, acrescida de algumas decisões nossas: pela primeira vez da história dos Jogos Olímpicos, a cerimónia de abertura será fora de um recinto, de um estádio. Portanto, são escolhas e os Jogos Olímpicos dão “muito jeito” a quem vai poder participar e ver as provas, mas também dão, obviamente, alguns transtornos a quem vive na zona onde acontecem os Jogos Olímpicos. Para que nada falte para acolher estes Jogos Olímpicos de Paris 2024, na construção e renovação das diferentes infra-estruturas que vão servir de vitrine para o evento, trabalham migrantes, muitos ilegais, segundo algumas ong’s. Pedro Viana, membro do conselho de redacção da revista "Migrations et Société", denuncia o recurso já recorrente a esta “mão-de-obra descartável”. Isto não é uma novidade. Essas grandes realizações de construções urbanas, todo o sistema do sector da construção, é baseado nisto, porque é uma mão-de-obra mais barata, explorada, que vai trabalhar horas e horas durante o dia, o que seria proibido pelo código de trabalho. Todas essas obras, sem a mão-de-obra estrangeira, não...

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2023: o ano de todos os "mal-estares" em França

12/28/2023
A França foi abalada em 2023 por várias crises sociais, em que sociedade civil e Governo se viram frente a frente, levando a um mal-estar generalizado tanto na âmbito da reforma do sistema de pensões, como nos motins dos jovens devido à violência policial e ainda em relação à nova lei da imigração. Em 2023, a França voltou a viver um ano de grande agitação social. A 10 de Janeiro, o Governo apresentou a há muito prometida pelo Presidente Emmanuel Macron reforma do sistema de pensões que visava suprimir vários regimes especiais que vigoravam há décadas para certas profissões, fazer uma nova contagem dos descontos para a reforma e ainda aumentar a idade da reforma de 62 para 64 anos. Logo a partir do início de Janeiro, os sindicatos começaram a mobilizar os trabalhadores promovendo um período de greve intermitente que se prolongou durante cerca de dois meses. Desde logo, a mobilização mostrou-se inédita já que juntou as principais centrais sindicais francesas, algo que não acontecia há mais de uma década, e bate recordes nas ruas de Paris e de todas as cidades francesas. A jornada de greve do dia 7 de Março foi mesmo considerada histórica por ter conseguido juntar nas ruas 1,28 milhões de manifestantes segundo a polícia, e 3,5 milhões segundo a central sindical CGT. Enquanto aas ruas os franceses pediam o fim desta reforma, nos corredores do poder e especificamente no Palácio do Eliseu, a maioria relativa do Presidente tentava encontrar apoios à esquerda e à direita para aprovar esta lei impopular. Tendo maioria relativa na Assembleia Nacional e precisando de uma maioria absoluta, os membros do Governo tentavam freneticamente recolher apoios, causando mesmo clivagens especialmente à direita, no partido Os Republicanos, onde muitos não viam com bons olhos um apoio ao Presidente Emmanuel Macron e à primeira-ministra Elisabeth Borne. Com o diálogo quebrado com os sindicatos, mas também sem confiança para uma maioria sólida no Parlamento, a primeira-ministra acabou por anunciar no dia 17 de Março, na Assembleia Nacional, o recurso ao artigo 49.3 da Constituição, que permite que o Governo aprove em força reformas consideradas essenciais para a continuação da governação. Nas ruas, ficou o dissabor de um protesto que não adiantou e que se juntou a um sentimento de mal-estar e menosprezo que já se faz sentir na sociedade francesa pelo menos desde o início do mandato de Emmanuel Macron, como explicou Diogo Sardinha, filósofo, em entrevista à RFI. "O que fica desta reforma é uma espécie de dissabor, um mal-estar, de uma luta social e política que não deu os resultados esperados. É um dos elementos que contribui para a decepção em relação à política governamental e para um mal-estar de uma camada da população que até agora era relativamente protegida e que beneficiava do Estado social", declarou Diogo Sardinha. A lei da reforma do sistema de pensões em França foi promulgada no dia 14 de Abril e entrou em vigor no início de Setembro. Motins e destruição após violência policial Alguns meses depois, um episódio violento volta a agitar a França. Um jovem, Nahel Merzouk, de 17 anos, é morto pela polícia numa operação stop em Nanterre, nos arredores de Paris. A primeira versão da polícia dá conta de uma fuga ou tentativa de atropelamento dos agentes que conduziam esta operação, mas um vídeo que começou a ser difundido nas redes sociais, gravado por um outro condutor, conta uma história diferente. Nahel, que era menor e não tinha carta, tentou fugir após ser parado pela polícia, mas recebeu quase instantaneamente uma bala no peito, que o feriu mortalmente. Este foi um episódio de violência policial que veio adensar um passivo das forças de ordem e segurança francesas que não para de crescer desde as manifestações dos coletes amarelos entre 2018 e 2019, passando pelas manifestações da reforma do sistema de pensões e pelo qual a França já foi condenada pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e criticada pelas Nações Unidas e pelo...

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